História do Cinema em Teófilo Otoni
A história do cinema em Teófilo Otoni é rica e cheia de personagens marcantes. De salões poeirentos a palácios cinematográficos com mais de mil lugares, a cidade viveu décadas de glamour e transformações, sempre tendo as salas escuras como ponto de encontro, lazer e sonho para sua população. Vamos revisitar essa trajetória através da memória de seus quatro grandes cinemas.
Cine Império (O Poeira)
Considerado o primeiro cinema construído de propósito na cidade, o Cine Império ficava onde hoje é a agência do Banco do Brasil, na Praça Tiradentes. No entanto, sua origem é ainda mais modesta e fascinante. De acordo com relatos de uma entrevista, o Sr. Sadi Ribeiro, patriarca de uma família que marcaria a história do cinema local, tinha um bar e, no fundo dele, já projetava filmes. Esse negócio começou a dar dinheiro e, mais tarde, deu lugar ao Cine Império.
Conhecido popularmente como "Cine Poeira", o cinema era mais simples e, com o tempo, ficou defasado em relação aos concorrentes mais luxuosos. Circulavam até piadas sobre o estado do lugar, dizendo que "dava pulga", mas ele cumpriu um papel fundamental como introdutor da sétima arte na cidade, cobrando mais barato e exibindo os filmes mais antigos enquanto os cinemas novos exibiam as grandes estreias.
Cine Vitória
Inaugurado em 14 de julho de 1944, o evento foi uma grande celebração social, com sessão de gala e a exibição do filme "Na Noite do Passado", com Greer Garson e Ronald Colman. O programa do dia incluía a inauguração do edifício às 16h e a sessão especial à noite. As imagens da época mostram a elite da cidade, como o Dr. Eliseu Viana e o Coronel Rozendo Pinto, reunida para o evento.
Em 1944, a cidade ganhou o seu primeiro cinema de luxo: o Cine Teatro Vitória. Seu nome é uma exaltação à vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial. Localizado na Avenida Getúlio Vargas, onde hoje funciona uma lanchonete, o prédio é um projeto do importante arquiteto italiano Raffaello Berti, um dos fundadores da Escola de Arquitetura da UFMG. Ele foi responsável por obras como a Prefeitura de Belo Horizonte, o prédio dos Correios e o Cine Metrópole da capital.
A estrutura do Vitória é impressionante: como relembrado em entrevista, "Tem uma laje que não tem uma viga, não tem nenhuma viga de sustentação, não tem nada. É uma laje inteira, um vão livre, num espaço para quase mil pessoas." Por essa importância arquitetônica e cultural, muitos defendem que o prédio deveria ser tombado como patrimônio histórico.
INAUGURA-SE NO DIA 14 O CINE TEATRO VITÓRIA
“NA NOITE DO PASSADO”, grandioso filme vivido pelos astros de “Rosa de Esperança”, o notável cartaz de estreia do VITÓRIA
Teófilo Otoni vai ter a alegria imensa de ver realizada no dia 14, uma das suas grandes aspirações. Cidade que deve seu desenvolvimento ao dinamismo e ao espírito progressista do seu povo, ressentia-se de uma casa de diversões à altura do seu desenvolvimento. No dia 14, teremos a inauguração do VITÓRIA. E o filme que vai ser oferecido à população de Teófilo Otoni é bem um espetáculo de acordo com o grande dia: “Na Noite do Passado”.
Ordem do Programa: Às 16 horas é a inauguração do edifício Vitória. Às 20 horas “Sessão de Gala”.
Inauguração do Cine Vitória — 14 de julho de 1944.
O Cine Vitória também era um ponto de encontro social, o famoso "footing" acontecia em sua porta. Como conta a entrevista, antes do filme começar, "as mulheres passavam para lá e para cá, desfilando, apresentando o produto. E os homens registrando para fazer a escolha."
O Vitória era tão importante que possuía um gerador próprio, um enorme "Caterpillar", que garantia a exibição dos filmes e uma iluminação forte na fachada, em contraste com a energia elétrica da cidade, que na época era tão fraca que "você tinha que acender um fósforo para enxergar se estava acesa ou apagada." O motor do gerador ficava em uma casa com isolamento acústico para não atrapalhar as sessões.
O Cine Teatro Vitória também sempre foi um ponto de passagem de autoridades. No passado, recebeu o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em suas caravanas da cidadania. Mais recentemente, foi frequentado por políticos como Aécio Neves, Antonio Anastasia, a Prefeita Maria José e o Deputado Getúlio Neiva.
Cine Metrópole
Em 1952, foi a vez do Cine Metrópole começar a ser construído na Praça Duque de Caxias (hoje Praça da Cemig). A assinatura para a liberação da construção foi feita pelo então prefeito Petrônio Mendes, com o empresário Sadir Ribeiro.
Um filme de 1957, disponível no YouTube, mostra detalhes fascinantes da construção, com suas formas de madeira e os pedreiros de chapéu de palha, revelando as técnicas construtivas da época. Um fato curioso é que o Cine Metrópole foi construído no terreno onde antes funcionava a antiga Igreja Luterana, que foi vendida para que uma nova igreja fosse erguida na Rua Capitão Leonardo.
Invasão de Caminhão
O Metrópole foi palco de um acontecimento inusitado e digno de roteiro de cinema. Um carro desgovernado desceu a Rua João Lorantez sem freio, atravessou a Avenida Getúlio Vargas, cruzou o jardim da praça e foi parar dentro do cinema! Dona Fany Moreira relembra o episódio com detalhes:
"[...] desceu a rua joão lorantez sem freio, [...] e então bem às duas horas da tarde cai dentro do cinema [...] causando alvoroço. Agora o que nós podemos notar que com muita sorte, claro, presença de Deus, ninguém saiu ferido. [...] Se tivesse ocorrido uma sessão, teria machucado muitos, teria morrido muita gente. Depois eles colocaram umas colunas [...] As cadeiras muitas delas destruídas, tudo destruído." — D. Fany Moreira em entrevista.
Cine Palácio
Inaugurado em 18 de abril de 1964, na Praça Tiradentes, em frente à fonte luminosa, o Cine Palácio foi um empreendimento de um grupo de empresários e foi considerado o maior cinema do interior de Minas Gerais, com cerca de 1.200 lugares. Sua tela gigante e projetores potentes (GK 620, cópias brasileiras dos Simplex americanos) proporcionavam uma experiência única. O filme de estreia foi "A Fonte dos Desejos".
O Palácio não era apenas cinema; era um centro cultural. Em seu palco, apresentaram-se gigantes da música brasileira como Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Agnaldo Timóteo. As bilheterias eram estrondosas: "Titanic" levou mais de 30 mil espectadores, "Cobra" (com Stallone) 20 mil e "Tubarão" mais de 15 mil.
Os meninos da época trocavam figurinhas e gibis em seu saguão. O cineasta local, Seu Mauro Pereira, um dos sócios, não só exibia os filmes, mas também era apaixonado por registrar a cidade. Junto com Chicre Mattar, ele possuía equipamentos de filmagem e documentava tudo em 8mm, 16mm e 35mm: a visita de Juscelino Kubitschek, a queda de um avião, acidentes na BR-116, o movimento do comércio local. Eles também levavam o cinema à periferia, alugando galpões no Veneta e São Jacinto e passando filmes em 16mm para quem não podia pagar o ingresso dos grandes cinemas, criando uma saudável concorrência.
Antes de falecer, Seu Mauro, temeroso de que todo esse registro histórico se perdesse "por falta de confiança até mesmo nos poderes públicos", confiou seu acervo ao produtor cultural Cristiano Salazar. Esse material inestimável, que conta décadas da história da cidade, agora precisa de recursos para ser restaurado e digitalizado.
"São muitos conteúdos com filmagens feitas de eventos e acontecimentos na cidade de Teófilo Otoni, são filmes feitos da década de 40 para cá que documentam coisas importantíssimas... O seu Mauro me procurou me pediu para que eu tomasse uma providência em relação a esse acervo... a gente precisa de recurso para restaurar e digitalizar também esse material... mas eu acho que a iniciativa privada também pode nos auxiliar."
— Cristiano Salazar em entrevista.
Infelizmente, o Cine Palácio encerrou suas atividades em 2007. Sua fachada e parte do interior foram descaracterizadas para dar lugar a um comércio.
O Cotidiano das Salas Escuras e o Declínio
A magia do cinema ia além da tela. A entrevista nos transporta para o cotidiano dessas salas. Havia o baleiro, que vendia balas, drops e jujubas (os chicletes foram proibidos porque as pessoas grudavam debaixo das cadeiras). E havia o lanterninha, um funcionário que, com sua lanterna, circulava durante o filme para impedir namoros mais ousados ou pessoas colocando os pés nas poltronas. "Na hora que apagava a luz, ficava tudo escurinho e as pessoas aproveitavam para beijar. Aí tinha o lanterninha", relembra a entrevista.
Mas o declínio dos grandes cinemas de rua teve um nome: videocassete. As locadoras tornaram mais barato e cômodo assistir aos filmes em casa. Para sobreviver, os cinemas apelaram para filmes de "Pornochanchada" e, num triste fim, para o cinema pornô. Nenhuma estratégia segurou o público. As grandes salas fecharam ou foram transformadas: o Metrópole virou academia, o Império deu lugar ao Banco do Brasil, o Palácio virou loja. Apenas o Cine Vitória, um patrimônio arquitetônico e cultural idealizado por Raffaello Berti, resiste, precisando de cuidados e reconhecimento.
A história do cinema em Teófilo Otoni é um retrato do Brasil. De palcos que receberam Roberto Carlos a carros desgovernados que invadiam as sessões, tudo isso faz parte de uma memória que precisa ser preservada. Iniciativas como a de Cristiano Salazar, para restaurar o acervo de Seu Mauro, são fundamentais para que as novas gerações possam conhecer e se orgulhar desse passado.
Fontes e Agradecimentos:
Memórias do Cine-Teatro Vitória
Hemeroteca Digital BN - Cine Vitória
Cine Palácio - Teófilo Otoni, MG
Filme: Construção do Cine Metrópole (1957 aprox.) — YouTube
Entrevista de D. Fany Moreira concedida a Elvis Passos — YouTube
Entrevista presencial com Cristiano Salazar realizada pelo autor.
Relatos e colaboração de diversas pessoas que vivenciaram a era de ouro do cinema em Teófilo Otoni.