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Sétima Divisão Militar de São Miguel: Turismo Em Jequitinhonha

Sétima Divisão Militar de São Miguel: Turismo Em Jequitinhonha

Sétima Divisão Militar de São Miguel

Sétima Divisão Militar de São Miguel

Segundo a obra Jequitinhonha: a riqueza de um vale À primeira divisão militar criada no Jequitinhonha deu-se o nome de Sétima Divisão Militar de São Miguel, em homenagem ao santo do dia em que Julião Fernandes Leão chegou à região. Em torno dela, cresceria o povoado de São Miguel, que deu origem à atual cidade de Jequitinhonha. A igreja paroquial foi erguida em 1818, por iniciativa do vigário da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Água Suja. Em 1837, já havia dois quartéis instalados no povoado

Uma das principais ações do comandante, que constava já entre as primeiras ordens que recebeu, foi a abertura de um caminho mais ou menos paralelo ao rio, que passou a ligar o Rio Piauí, afluente pela margem direita do Jequitinhonha, à Belmonte, no litoral. Ao longo desse caminho, nos anos seguintes, seriam criados os postos de Bonfim dos Quartéis, São João da Vigia e do Salto Grande, todos eles pertencentes à Sétima Divisão Militar, sediada em São Miguel. Em torno desses quartéis, cresceram povoados que dariam origem, respectivamente, às atuais cidades de Joaíma, Almenara e Salto da Divisa.

Quando Saint-Hilaire visitou o vale, em 1817, pelo menos o quartel de Vigia já estava instalado. Por sua vez, o povoado de Santo Antônio da Barra do Itinga formouse também às margens do rio e da estrada aberta por Julião Fernandes Leão, dando origem à atual cidade de Itinga.

A guerra contra os botocudos foi implacável. A tática incluía o cerco da aldeia durante a noite e o assalto durante a madrugada. No primeiro lance, eram tomados os arcos e flechas dos sitiados, que eram guardados amontoados próximos ao fogo. Os adultos eram então trucidados, separando-se as crianças, para serem vendidas como trabalhadores escravos, e as mulheres jovens, para a escravização sexual. Índios cooptados pelos militares serviam de guias. “Matar uma aldeia” era a expressão comumente utilizada para designar esses assaltos.

Segundo Teófilo Otoni, que descreveu minuciosamente o morticínio de várias aldeias botocudas, “[...]matavam-se aldeias no Jequitinhonha, no Mucuri, e no Rio Doce, em Minas, e no Espírito Santo”. Na comarca de São Mateus, no Espírito Santo, o autor ouviu o relato de que um comandante militar trouxera de uma dessas matanças, como despojo de guerra, 300 orelhas amputadas de índios mortos. Houve até casos de doação de roupas de pessoas sabidamente infectadas por doenças contagiosas para grupos indígenas, com o propósito de matá-los pelo contágio.

Saint-Hilaire e Spix e Martius elogiam o “trato bondoso” do comandante Julião Fernandes Leão para com os índios, mas, segundo Otoni, o militar foi o responsável pela guerra contra os botocudos “[...]em toda a extensão do Jequitinhonha, do Calhau até Belmonte.”

A estratégia de “limpeza” dos sertões do leste foi bem sucedida. Em meados do século XIX, salienta-se a ocupação agrícola e a circulação mercantil entre o quartel de São Miguel e o litoral. Nessa região, já se cultivavam algodão, cana-de-açúcar, milho, feijão, arroz, mandioca, legumes, melão e melancia.

Por seu turno, a nova estrada permitia o escoamento dessa produção para os portos de Belmonte, Canavieiras, Porto Seguro e Mucuri. Parte dos botocudos tinha sido aldeada. Entre seiscentos e setecentos índios foram remetidos para as vilas de Bom Sucesso (Minas Novas), Santa Cruz da Chapada (Chapada do Norte) e São Domingos (Virgem da Lapa), onde estavam obrigados ao trabalho escravo por dez anos, no caso dos adultos, e vinte, no caso das crianças. Cumpria então treinar os botocudos para trabalharem como lavradores e canoeiros.

O médio Jequitinhonha tornara-se, portanto, franqueado à navegação mercantil. O trecho navegável iniciava-se em Tocoiós (Coronel Murta). Esse povoado, existente pelo menos desde 1778, quando figura no texto e nos mapas de José Joaquim da Rocha,69 se tornaria importante no início do século XIX por conectar o caminho terrestre que chegava dos núcleos mineradores do Vale do Araçuaí com o início da rota fluvial do Jequitinhonha.

Em Tocoiós, cargas de algodão eram embarcadas em canoas compridas e estreitas, que levavam até 64 arrobas, ou 940 quilogramas. De São Miguel até o litoral, as canoas tinham que ser esvaziadas e a carga era transportada por terra, em três pontos encachoeirados do rio: na Cachoeira do Inferno, no Salto Grande e na Cachoeirinha. Algumas ilhas de maior superfície se destacavam no trajeto: a ilha Alegre, abaixo da foz do Araçuaí, e a ilha do Pão, entre São Miguel e Vigia. Segundo Saint-Hilaire, a viagem de São Miguel até a costa levava oito dias; no sentido inverso, contra a corrente, o tempo gasto era de 18 a 20 dias. De Belmonte, o carregamento seguia por mar para Salvador; o que se podia fazer em 24 horas.

Muito pouco remanesce, na atualidade, desse passado dinâmico e conflituoso de ocupação militar e expansão comercial ao longo do médio Jequitinhonha. Nas cidades originárias dos quartéis – Jequitinhonha, Joaíma, Almenara, Salto da Divisa – não há registros do antigo papel que desempenharam como postos avançados da colonização luso-brasileira. A cidade de Jequitinho nha, originária do primeiro povoado luso-brasileiro assentado no médio Jequitinhonha, possui edificações do início do século XX, algumas delas de grande beleza arquitetônica e em excelente estado de preservação, mas não há sinais da antiga posição de sede da Sétima Divisão Militar. É possível que nisso tenha influído a trasladação do centro da cidade para a sua parte mais alta, longe do rio, devido à enchente de 1979.

Fontes:

Jequitinhonha, A Riqueza de um Vale. Belo Horizonte: 2006.